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Da datilografia à tokenização

Saí da tecnologia para não virar refém de uma ferramenta. Trinta anos depois, ela voltou pela porta do negócio que eu construí.

Rascunho em revisão. Este texto ainda pode mudar.

Nos anos 90, a minha semana tinha duas aulas que hoje parecem de séculos diferentes. Numa, eu aprendia datilografia: postura, dedos na fileira do meio, folha de papel almaço e o barulho da máquina. Na outra, aprendia a ligar e usar um computador pessoal, que ainda era novidade cara e meio misteriosa.

Ninguém sabia dizer qual das duas habilidades ia sobreviver. Parece óbvio olhando de hoje, mas naquela época a aposta segura era a máquina de escrever. Ela funcionava, todo escritório tinha uma, e o computador ainda travava.

Essa sensação de não saber qual futuro vai vencer me acompanha desde então. E acho que ela explica quase todas as escolhas que fiz depois.

Saí da tecnologia para não ficar preso a ela

Me formei em Processamento de Dados. Gostava de entender como as coisas funcionavam por dentro, e programar era um jeito de construir algo do zero.

Mas percebi cedo uma coisa incômoda: a tecnologia mudava rápido demais para eu apostar a carreira numa ferramenta específica. A linguagem que eu dominava hoje podia não valer nada em cinco anos. E, mais importante, ficar só no código ia esconder aquilo que eu fazia melhor: enxergar um negócio, montar e vender.

Então fiz uma troca que muita gente achou estranha. Fui para a Publicidade e depois para uma pós em Marketing. Troquei o como construir pelo por que alguém vai comprar.

Muitos negócios, um mesmo músculo

Daí em diante, foram anos empreendendo em setores que não têm nada a ver um com o outro. Agência de propaganda, produtora de áudio para o mercado publicitário, salão de beleza, comércio de veículos, loja de calçados. Passei também por empresas de serviço e de varejo.

Vistos de longe, parecem uma colcha de retalhos. Vistos de perto, todos exercitavam o mesmo músculo: entender o que o cliente valoriza, organizar uma operação para entregar isso e fechar a conta no fim do mês.

A construção civil chegou depois, e comecei por baixo, como corretor. Foi ali que entendi o mercado pelo lado de quem compra. Depois veio a construtora. Em dez anos, a Imobcon construiu e entregou mais de 1.500 unidades, entre obras feitas como construtora e empreendimentos próprios como incorporadora.

A tecnologia voltou pela porta da frente

O curioso é que a tecnologia nunca foi embora. Ela só mudou de lugar.

No mercado imobiliário, uma das perguntas mais antigas é como tornar um ativo pesado, caro e pouco líquido mais acessível. Tradicionalmente, a resposta passa por fundos, consórcios e estruturas jurídicas complexas, com muitos intermediários.

A tokenização propõe outra resposta: representar direitos sobre um ativo real em registros digitais, divisíveis e programáveis. Foi assim que nasceu a Token4Us. O menino da aula de computador reencontrou o corretor e o incorporador num mesmo projeto.

Não acho que isso seja coincidência. Acho que é a recompensa de ter apostado na habilidade, e não na ferramenta.

O que eu levaria daquela sala de aula

Se pudesse voltar e conversar com aquele garoto dividido entre a máquina de escrever e o computador, eu diria três coisas.

A ferramenta muda; a pergunta, não. Datilografia, programação, publicidade, construção e blockchain responderam, em épocas diferentes, à mesma pergunta: como entregar valor para alguém de um jeito melhor do que antes.

Não ter certeza do futuro não é motivo para esperar. A aposta segura dos anos 90 era a máquina de escrever. Quem esperou o futuro ficar claro chegou atrasado nele.

Toda experiência vira repertório. O que aprendi vendendo calçados ajudou a vender apartamentos. O que aprendi programando ajudou a entender tokenização. Nada se perde quando você presta atenção.

É sobre isso que pretendo escrever aqui: o que aprendo construindo negócios, prédios e sistemas, com a mesma curiosidade daquela sala com uma máquina de escrever de um lado e um computador do outro.

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